A FÉ QUE NÃO RETROCEDE

A FÉ QUE NÃO RETROCEDE
(Hb. 11.1-7)
INTRODUÇÃO


DEPOIS DE DIZER AOS CRENTES hebreus que não somos daqueles que retrocedem para a perdição, mas somos da fé, para a conservação da alma (10.39), o autor dessa epístola introduz o mais longo capítulo da carta, falando sobre a fé que não retrocede (11.1-40). Ele faz uma retrospectiva histórica do povo de Israel desde os seus primórdios até seus dias, mencionando vários heróis da fé. Segundo Donald Guthrie, o propósito do escritor é ilustrar a continuidade entre os cristãos hebreus e os homens piedosos da Antiguidade. Suas proezas são vistas como um prelúdio apropriado para a era cristã (11.39,40). Walter Henrichsen destaca o fato de que nessa longa lista só se faz menção de um clérigo – Samuel – e apenas de passagem. Lavradores, políticos e empresários – são esses homens que Deus selecionou no Antigo Testamento para reconhecimento especial. Concordo com Wiley quando ele diz que Hebreus 11 é um dos textos mais grandiosos da Bíblia, pois nele estão os heróis e os mártires que os judeus e cristãos se deleitam em honrar.
Os que são de Deus permanecem na fé; os que retrocedem, viram as costas para Deus e apostatam, esses jamais conheceram a Deus nem foram por ele conhecidos.
É hora de entrarmos pelos corredores da história e nos posicionar nesse vasto salão, para contemplar os quadros mais famosos, na galeria dos heróis da fé.

Vamos à exposição do texto.


1 – A FÉ EXPLICADA – O CONCEITO E O ALCANCE DA FÉ (11.1-3)
Aqui está a única definição de fé encontrada na Bíblia. É bem verdade que essa não é uma definição completa, uma vez que a fé tem vários significados nas Escrituras.
Ao mesmo tempo que o autor trata do que é fé, mostra seu reconhecimento por Deus e como essa fé influencia a nossa cosmovisão. Três verdades devem ser aqui destacadas.
Em primeiro lugar, a fé se apoia na Palavra de Deus (11.1).
Raymond Brown diz que a fé é a resposta humana ao que Deus diz em sua Palavra.
A fé é a certeza de coisas e a convicção de fatos; coisas que se esperam e fatos que se não veem. Concordo com Olyott quando ele diz que algumas coisas são invisíveis porque ainda não aconteceram, ou porque ainda não as alcançamos. Portanto, a fé não é a certeza do desconhecido, mas do invisível.
Henrichsen diz que a fé é a garantia e a prova do que é futuro e do que é invisível.
Augustus Nicodemus está certo quando diz que não vemos o próprio Deus nem o Senhor Jesus assentado à sua direita. Não vemos o Espírito Santo, não vemos o céu nem o reino de Deus, mas sabemos tudo isso porque o Deus invisível se revelou a nós em sua Palavra e em seu próprio Filho que se fez carne.
Laubach está certo quando diz que a fé é a confiança inabalável de que um dia Deus cumprirá todas as suas promessas e profecias.
Portanto, a fé não lida com a dúvida, mas se apoia numa certeza inabalável. A fé não é pensamento positivo nem crendice. A fé tem Deus como seu objeto e a Palavra de Deus como seu fundamento. Porque Deus falou, nós cremos. Porque Deus prometeu, nós confiamos. Porque a palavra de Deus não pode falhar, a fé ri das impossibilidades e descansa imperturbável nos braços das promessas de Deus.
Promessa de Deus e realidade são a mesma coisa.
Lightfoot diz corretamente que a fé é o título de propriedade de coisas que se esperam, o penhor1 da herança eterna do cristão. A fé dá realidade às coisas esperadas. Certamente as coisas que se esperam têm uma existência independente da fé – a fé não pode conceder-lhes a sua realidade. 1 Penhor é direito real de garantia vinculado a uma coisa móvel ou mobilizável. Genericamente, o penhor é qualquer objeto que garante o direito imaterial, não palpável. Por exemplo: o penhor do trabalho é o dinheiro;
Concordo com Henrichsen quando ele escreve: “Fé sem promessas de Deus não é fé, de modo algum; não passa de mera presunção. Por outro lado, a promessa sem obediência também não é fé; é incredulidade”.


2- A FÉ ALCANÇA A APROVAÇÃO DE DEUS (11.2)
Os nossos antepassados confiaram na Palavra de Deus, se firmaram nas promessas de Deus e obtiveram de Deus bom testemunho. A fé honra a Deus, e Deus honra a fé. Sem essa fé, o homem não pode agradar a Deus (11.6).
A fé reconhece o poder de Deus (11.3). A fé proporciona entendimento de acontecimentos que não podem ser plenamente elucidados racionalmente. O relato da criação, registrado nas Escrituras, não é formado por lendas antigas ou concepções mitológicas há muito ultrapassadas, mas é uma revelação confiável de Deus que, no entanto, é acessível somente à fé.
Por isso, entendemos que o Universo vastíssimo e insondável não aconteceu simplesmente e nem sempre esteve aqui. O Universo foi formado. A matéria não é eterna, como pensavam os gregos. O Universo não veio à existência por geração espontânea. O Universo não é produto de uma explosão cósmica. O caos não produz o cosmo nem a desordem dá à luz a ordem. Uma explosão jamais poderia colocar em ordem este vasto Universo com leis tão precisas. Nosso planeta, por exemplo, está rigorosamente no lugar certo. Se estivéssemos mais perto do Sol, morreríamos queimados. Se estivéssemos mais longe, morreríamos congelados. Se a Lua não estivesse exatamente onde está, não haveria o fenômeno das marés e, se não houvesse esse fenômeno, as praias se encheriam de lixo e a vida seria impossível na Terra. Permanece a realidade incontroversa: o Universo foi criado. Isso a ciência demonstra. Porém, nós cremos, pela fé, que este Universo veio à existência pela Palavra de Deus (11.3) e pela ação do Filho de Deus (1.2). Lightfoot tem razão ao dizer que é por causa da fé e por meio dela que se obtém a verdadeira compreensão da ordem criada. Existe por trás de tudo uma força invisível que não está sujeita às investigações da ciência.
Concordo com Augustus Nicodemus quando ele diz que a ciência não está contra a Bíblia. Ambas têm o mesmo autor. Na verdade, é o cientificismo do naturalismo filosófico que vai contra a Bíblia, porque os grandes cientistas, os fundadores da ciência moderna, como o grande Isaac Newton, eram teístas, acreditavam em Deus.
A Bíblia e a ciência caminham de mãos dadas. Ambas têm o mesmo autor. A Bíblia corretamente interpretada e a ciência corretamente entendida jamais entram em contradição.


3- A FÉ MANIFESTADA ANTES DO DILÚVIO – A OBEDIÊNCIA DA FÉ (11.4-7)
O escritor de Hebreus começa sua galeria dos heróis da fé com a primeira família da terra indo até o dramático tempo do dilúvio. Ele coteja, compara entre os pioneiros três nomes: Abel, Enoque e Noé. Vejamos.
ABEL, O SACRIFÍCIO DA FÉ (11.4).
Abel e Caim eram filhos de Adão e Eva, cresceram sob as mesmas influências, ouvindo as mesmas histórias. Ambos acreditavam em Deus e vieram para adorá-lo. Abel e sua oferta foram aceitos por Deus, ao passo que Caim e sua oferta foram rejeitados (Gn 4.4,5). Tanto a oferta de Abel como sua motivação eram melhores.
O texto nos chama a atenção para três fatos.
A oferta revela a natureza da fé do ofertante (11.4).
Abel ofereceu mais excelente sacrifício que Caim, porque sua oferta foi de acordo com a Palavra de Deus. Por isso, ofereceu-a pela fé. Ele cultuou a Deus conforme a prescrição divina. Seus pais foram vestidos com peles de animais (Gn 3.21).
Um animal foi sacrificado para que eles fossem cobertos. Já estava aí o prenúncio de que, sem derramamento de sangue, não há remissão de pecados (9.22). Abel ofereceu um sacrifício de sangue e recebeu o testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Abel ofereceu o sacrifício certo, sob a orientação da prescrição certa, com a vida certa e a motivação certa.
A vida do ofertante é o fundamento de sua oferta (11.4).
O texto de Gênesis 4.4,5 deixa claro que o Senhor se agradou de Abel e de sua oferta, ao passo que não se agradou de Caim e de sua oferta. O ofertante vem antes da oferta.
Primeiro Deus aceita o adorador, depois a adoração. Primeiro Deus recebe o ofertante, depois a oferta. A vida de Abel estava certa com Deus. Ele era um homem justo (Mt 23.35), por isso prestou um culto aceitável a Deus.
A vida de Caim estava errada com Deus, por isso sua oferta também foi rejeitada. Não podemos prestar culto aceitável a Deus à revelia das prescrições divinas, nem podemos ser aceitos por Deus quando trazemos para o altar um coração cheio de ódio. Caim estava cheio de ira. Caim era do Maligno, e suas obras eram más (1Jo 3.122).
Caim era um falso adorador. Sua vida e seu culto não foram aceitos por Deus. A morte pode calar a voz do adorador, mas não pode apagar o testemunho de sua fé (11.4). Abel foi assassinado por seu irmão, Caim, mas, por meio de sua fé, ele ainda fala. Sua voz póstuma ainda ecoa nos ouvidos da história.
ENOQUE, O ANDAR DA FÉ (11.5,6).
Crer significa viver com Deus.
Isso é mais que um ato regular de adoração num dia específico da semana, num lugar específico de reunião. Toda a nossa vida pertence a Deus.
Enoque viveu no meio de uma geração perversa e má, mas escolheu andar com Deus e deleitar-se em Deus. Enoque viveu sublimemente acima da corrupção de seu tempo. Sua intimidade com Deus era tal que Deus o recolheu para si sem que ele passasse pela morte.
Enoque agradou a Deus em sua vida, exemplificando o princípio de que sem fé é impossível agradar a Deus (11.6). E isso por duas razões:
a) Porque aquele que se aproxima de Deus precisa crer que ele existe;
b) Porque quem se aproxima de Deus precisa crer que ele é galardoador dos que o buscam. Ou seja, aquele que se aproxima de Deus precisa reconhecer dois grandes fatos acerca de Deus: sua existência e sua generosidade.
Ao buscar a Deus, o pecador recebe perdão; o moribundo recebe misericórdia; e o caído recebe restauração.
NOÉ, O TRABALHO DA FÉ (11.7).
Noé ouviu a Palavra de Deus sobre o juízo que viria sobre o mundo pervertido e prontamente agiu para construir a arca. Ele não apenas escutou a voz de Deus, mas imediatamente se colocou a trabalhar. A fé produz obras. A fé que não age é uma fé morta.
Noé demonstrou uma fé robusta, pois numa época em que a chuva ainda não havia caído sobre a terra, ele investiu cento e vinte anos para construir um imenso barco para salvar sua família e os animais. Noé não se deixou dissuadir pelas críticas dos oponentes. Porque levou a sério a Palavra de Deus, construiu um “Titanic” que resistiu a todos os icebergs das críticas desairosas. Ele ousou crer no impossível. Wiley diz, com razão, que Cristo é a arca da nossa salvação, na qual nos elevamos acima das ondas do dilúvio do mundanismo e do pecado.

CONCLUSÃO
Durante o período antediluviano, Deus foi longânimo, e o seu Espírito pelejou com os homens. Mas eles não deram ouvidos e continuaram no pecado até o dia em que Noé entrou na arca (Mt 24.38,39). Noé enfrentou a zombaria dos homens por acreditar e agir de acordo com a Palavra de Deus. Agindo assim, ele condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça. Calvino é enfático ao dizer que, quando o mundo inteiro se entregou aos prazeres sem recato e sem freio, crendo poder viver impunemente, apenas Noé levou em conta a vingança divina; fatigou-se ao longo de cento e vinte anos na construção de uma arca; permaneceu firme no meio da zombaria de uma multidão incrédula; e, no seio de um mundo inteiro em ruína, não duvidou de que seria salvo, confiando sua vida àquela espécie de túmulo, que era a arca. 2 Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas.

Autor: Pr Andre LDA

Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Brasil - ISBL, estudou também na Faculdade Teológica Sul Americana, convalidando o curso na Unicesumar. Especialista em docência no ensino superior pela Unicesumar e Liderança, Plantação e Revitalização de Igrejas pelo Seminário Teológico Asbury. Atualmente é graduando em licenciatura em história pela Unicesumar. Tenho uma grande e honrosa missão, Ganhar, Cuidar e Encorajar as pessoas a terem um relacionamento com Jesus, é nisso que gasto minha vida, eu e toda minha família estamos envolvidos nesta nobre tarefa. Soli Deo Gloria

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