Suicídio entre pastores

Hoje mais um pastor tragicamente tirou sua própria vida. Por isso resolvi (também) escrever um pouco sobre os bastidores do ministério pastoral. Acho que ajuda a igreja como um todo a ajudar quem entrou de coração e cabeça nesse chamado.

Acredite, nós trabalhamos
Quantas vezes não ouvimos a pergunta: “mas vc é só pastor?” – mesmo de que forma inocente? Ainda há no imaginário das pessoas aquela idéia de que fazemos rapidamente o sermão de domingo, fazemos 1 ou 2 visitas e pronto, nossa semana acabou. Não é que necessitemos da valorização, mas vc há de convir que brincadeirinhas com a suposta vida mansa que levamos depreciam o que fazemos.

Nos envolvemos emocionalmente com as pessoas e seus dramas
Ainda que tenhamos uma vasta bagagem, que nos permita um certo distanciamento esse envolvimento acontece. A consequência: o coração fica exposto. E o mesmo coração que se alegra pq vê o progresso do evangelho nas pessoas também sangra pela dor de ver aqueles que se afastam de Jesus.

As vezes somos descartados com uma certa facilidade
A danosa mentalidade de consumo da igreja evangélica é dolorosa. Aquele que caminhou ao seu lado, que vc tratou do casamento, aconselhou, ensinou o evangelho troca de igreja e de pastor pq viu na esquina uma igreja com uma banda melhor, “mais avivada”, “com mais luzes” ou sei lá o que. Eu sei que não devemos esperar nada em troca, mas lembre, somos gente…a gente se fere por essa descartabilidade sim.

Nossos erros são difíceis de serem perdoados
A função é muito relacional e isso aumenta a intensidade da ferida para ambas as partes. Quando erramos não é um erro estratégico operacional do tipo “vc trouxe prejuízo para empresa”. É do tipo “vc ME decepcionou” e esse traz uma carga mais difícil de ser digerida.

Somos comparados ao pior tipo de gente
O clássico: “Vc trabalha com o que?” e vc responde “Bom..eu sou pastor”. Veja bem, temos um santo orgulho do que fazemos! Mas é ruim quando a primeira imagem que vem quando nos identificamos é a de um charlatão, pouco estudado, querendo dinheiro das pessoas.

Nossas igrejas não são ricas e são pouco estruturadas
Lembro de uma vez que um amigo norte-americano me perguntou quantas pessoas eu tinha no meu staff pago. Eu ri, apontei pro meu celular e disse “A siri”. Ele citou de púlpito isso como se eu fosse um herói! Não sou herói – eu sou a regra. A maioria das igrejas conta com poucos recursos, nenhuma ou quase nenhuma pessoa paga de tempo integral/parcial e um voluntariado cheio de amor por Jesus mas nem sempre com tempo..e muita muita muita demanda de trabalho.

Há poucos excelentes pregadores
E não somos eles…sem falsa humildade…Mas eles, graças a Deus, estão aí falando de Jesus com graça, prendendo a atenção das pessoas. Isso é bom. Muito bom! O lance é que na maioria das vezes a pregação mesmo fiel a Bíblia não é tão impactante assim e aí começa o lado ruim dessa história..a comparação que é feita pra ferir…

Transitamos entre o ser família e ser uma organização
Dizem..A igreja está muito “empresa” ou “Lá o clima é bom, mas falta organização”
Liderar esse corpo que quando se relaciona parece uma familia e quando executa faz com excelência não é tarefa fácil.

Trabalhamos no contrafluxo do trabalho
Feriado, fim de semana, antes das 09h e depois das 18h são os horários mais cheios. Quando não conseguimos nos organizar em função disso caímos numa armadilha difícil.

Somos o prato preferido de muitas conversas
A gente sabe….a gente sabe…

Muito mimimi? Amargura? Perdão. Amo..amo…amo…amo o que eu faço. Mas hoje em função da perda de um colega (que não conhecia) quis expor um outro lado só pra lembrar que somos gente..nos ferimos…erramos..precisamos da graça de Deus e do ombro e compreensão dos irmãos.

Pr. Felipe Telles
Igreja Presbiteriana Raízes (RJ)