DISCIPULADO – UMA DISPOSIÇÃO DO CORAÇÃO

DISCIPULADO – UMA DISPOSIÇÃO DO CORAÇÃO

O mandamento  do Senhor Jesus para nós é de ir e fazer discípulos. Todos (as) são chamados a participarem desta tarefa, que não é um dom especial, e sim um mandamento. Diante desse mandamento, todos os que creem em Cristo não tem outra opção senão obedecer. O caráter do seguidor de Jesus é testado pela obediência aos Seus mandamentos, e o fazer discípulos é, sem dúvida, a maior implicação da obra de Cristo pós-Calvário

  • Mt 28.18 – 20 Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”.

Ensinar a obedecer: discipulado. A igreja existe para educar e edificar o povo de Deus. Em seu sentido literal Mt 28.19 quer dizer: “indo, batizando e ensinado”. Estes três aspectos são os elementos essenciais no processo de formar discípulos de Jesus. Ensino e obediência estão intimamente ligados (Ef 4.12-13; Cl 1.28).

AUTORIDADE

exousia

Esta palavra grega nos fala de: poder de escolha liberdade de fazer como se quer.

É como se estivéssemos recebendo uma licença ou permissão acompanhada com as ferramentas necessárias (poder físico e mental). No contexto deste versículo esta habilidade não é teórica, não fica apenas no discurso é uma habilidade ou força com a qual alguém é dotado, que possui ou exercita.

Recebemos de Jesus o poder da autoridade (influência) e do direito (privilégio), o poder de reger ou governar (o poder de alguém de quem a vontade e as ordens devem ser obedecidas pelos outros)

FAÇAM DISCÍPULOS       

matheteuo

Esta palavra grega nos esclarece da grande responsabilidade confiada a nós. Ela nos ensina que para fazer discípulos precisamos ser discípulo de alguém, seguir seus preceitos e instruções.

Para fazer discípulos temos que nos tornar discípulos e depois estaremos aptos a ensinar e instruir outros

O QUE É O DISCIPULADO?

  • É o relacionamento entre um mestre e um aluno baseado no modelo que é Cristo. Por ele o mestre reproduz no aluno a plenitude da vida que há em Cristo, capacitando o aluno a treinar outros para que também ensinem novos discípulos

Toda célula deve crescer mais calorosa através do companheirismo, mais profunda através do discipulado, mais forte através da adoração e mais numerosa através do evangelismo

Antes de começarmos nossa aventura por alguns detalhes deste universo das células, pequenos grupos ou qualquer outra nomenclatura que preferir, gostaria de compartilhar algo a respeito do discipulado. Creio que esta palavra discipulado contém segredos que são entendidos quando sabemos seu significado e colocamos em prática.

O discipulado é o fator mais importante e decisivo para o ministério celular e para as pessoas que o compõe.

Sem um discipulado cristocêntrico as pessoas terão dificuldades em percorrer o caminho da maturidade, de terem uma vida espiritual vitoriosa pautada na pratica das disciplinas espirituais e não crescerão em todos os sentidos. O discipulado, sério, elimina os ruídos na comunicação dos ensinamentos bíblicos.

No discipulado as pessoas desenvolvem hábitos de crescimento espiritual. Hábitos ou disciplinas espirituais promovem o crescimento espiritual. Quem não desenvolve bons hábitos terá maus hábitos. Por outro lado, hábitos devem ser desfrutados e não suportados. São quatro hábitos fundamentais, os quais fazem nascer outras pessoas em Cristo. Jesus nos ensinou que estes hábitos fundamentais definem o discipulado: um discípulos segue a Palavra de Deus (Jo 8.31-32), ora e dá frutos (Jo 15:7-8), não é possuído por seus bens (Lc 14.33) e expressa seu amor para com os outros (Jo 13.34-35). Não é possível falar de caráter sem falar de hábitos.

Analisando o desenvolvimento e crescimento de várias Igrejas que possuem a prática do discipulado e tendo como referência a Igreja primitiva (At 2.42-47),  observa-se que seus membros, tanto os neófitos, quanto os “tradicionais” são acompanhados e instruídos pela prática do discipulado levando-os a maturidade espiritual e a responsabilidade com seus atos sociais e espirituais. De acordo com esta constatação, podemos afirmar que existindo a prática do discipulado a Igreja cresce quantitativamente e qualitativamente.

Quando não há discipulado cria-se, o que pode ser chamado de um “descaso” com as reais necessidades que as pessoas têm ao serem alcançadas por Cristo, retardando o crescimento, desenvolvimento e colocando em risco o futuro destas vidas, por não receberem um alimento adequado.

A consequência disto é desnutrição espiritual, é o gerar pessoas sem profundidade, sem intimidade com o Espírito Santo, com a Palavra de Deus, pessoas que andam segundo as circunstancias, pessoas autônomas que não se sujeitam a nenhum tipo de orientação ou liderança. O Discipulado é tão importante na vida dos membros da igreja local porque defini a verdadeira identidade de embaixadores de Cristo.

Keith Phillips diz, no livro a “Formação de um Discípulo”: …a premissa de que o desenvolvimento do caráter é mais importante do que o desenvolvimento de técnicas. Você tem de ser a pessoa de Deus’ escreve ele, ‘antes de poder realizar a obra de Deus. Básica para tal procedimento é a necessidade de se morrer para o egocentrismo, afim de que Cristo tenha reinado indisputavelmente no coração. (1999, p. 6).

Segundo o Ph.D. Russel Norman Champlin, na declaração doutrinária da palavra discípulo diz:

A palavra discípulo está relacionada à idéia de disciplina. Isso é muito instrutivo, porque, acima de tudo, dos verdadeiros discípulos requer-se disciplina. Jesus não chamava homens meramente para que O seguissem. Ele exigia que eles renunciassem a tudo. Isso é assim, porque o discípulo envolve questões de vida e morte, porquanto o alvo do mesmo é a vida eterna”. A própria vida cristã é uma disciplina. Quando os homens a reduzem a algo menos do que isso, o cristianismo deixa de ser religião que foi fundada por Jesus. É possível a existência de uma sociedade religiosa na qual as pessoas se reúnem e desfrutem da companhia uma das outras, e até mesmo cumprem algumas boas obras, sem reterem a verdadeira natureza de uma verdadeiro discipulado. (2001, p. 180).

Keith Phillips escreve:

O discipulado cristão é um relacionamento de mestre e aluno, baseado no modelo de Cristo e seus discípulos, no qual o mestre reproduz tão bem o aluno a plenitude da vida que tem em Cristo, que o aluno é capaz de treinar outros para ensinarem outros. (1999, p. 16).

Discipular uma pessoa significa dedicar-se a ela sem limites para Gloria de Deus. É imputar o caráter de Cristo Jesus através do testemunho vivo na vida do discipulador. Significa trabalhar duro para que os Sonhos de Deus, as promessas de Deus aconteçam na vida do discípulo. O discipulador tem um papel fundamental no discipulado, é ele quem gerará no coração do discípulo, através da Palavra de Deus a importância da oração, da leitura da Palavra, do Jejum, da Família, do relacionamento conjugal, da criação dos filhos, do seu comportamento em relação a sua vida profissional, seu compromisso com a visão da sua igreja local.

Em um Sermão pregado na manhã da primeira visita do Dr. Lloyd-Jones à Capela de Westminster, no dia 29 de dezembro de 1935; e anteriormente, em Sandfields., ele fala sobre o Verdadeiro Discipulado Cristão[1]:

Certamente não há nada mais notável, na leitura da história da vida de nosso Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos, do que observar a forma como Ele sempre quis Se certificar que homens e mulheres não O seguissem motivados por uma razão errada. Vocês podem encontrá-lo constantemente parando e perguntando a homens e mulheres se O estavam seguindo pela razão certa. Ele parecia preocupado em não atrair aqueles que não tinham se apropriado do que era certo e verdadeiro. Não há maior paródia da vida de Cristo do que declarar que nosso bendito Senhor, no fim de Sua vida, ficou decepcionado quando Se viu abandonado por seus amigos; que Seu coração se partiu porque Ele nunca imaginara tal deserção, e que ela O surpreendeu. Não há nada mais falso, à luz do quadro que o Novo Testamento dá de Jesus. Lemos que nosso Senhor estava ciente dessa possibilidade desde o princípio e até mesmo a predisse. Ele Se esforçava constantemente para examinar Seus seguidores porque sabia com certeza o que iria acontecer no fim. Todos lembramos as maravilhosas palavras do Senhor no fim do sermão do Monte: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: nunca vos conheci apartai-vos de mim”. Eles pensavam que tudo estava bem; mas naquele dia descobrirão que estavam errados. Lembramos também da parábola da casa edificada sobre a rocha e da que foi edificada sobre a areia: “Prestem atenção como vocês escutam!” diz o Senhor. “Examinem-se e esquadrinhem-se a si mesmos”. Também lembramos da parábola do semeador, em que nosso Senhor parece estabelecer, como um princípio fundamental, que dentre todos os que O seguem, somente vinte e cinco por cento realmente têm apreendido a verdade. Quero também chamar a sua atenção para a parábola da rede que recolheu um certo número de peixes de toda qualidade — alguns bons, e outros maus —realçando a grande diferenciação entre as pessoas. Mas talvez a ilustração mais perfeita desse princípio pode se encontrada em um dos três quadros apresentados no fim do nono capitulo do Evangelho de Lucas. Vocês por certo se lembram do jovem que veio a Jesus dizendo: “Senhor ,eu te seguirei onde quer que fores”. Talvez acrescentando: “não sei quanto a essas outras pessoas, porém eu estou do Teu lado”. “Certamente”, alguém dirá, “esse é o tipo de homem que a Igreja de Deus está buscando hoje em dia. Certamente nosso Senhor o recebeu de braços abertos!” Mas foi a esse homem que Jesus disse: “As raposas tem covis e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Cristo Se volta para esse zelote, e diz: “Você esta cheio de zelo, entusiasmo e êxtase, mas realmente entende o que significa Me seguir? Significa ostracismo, e talvez renúncia às coisas que mais valoriza na vida. Certifique-se de que sabe exatamente o que significa discipulado cristão”. Ao ler os Evangelhos, vocês verão que nosso Senhor estava constantemente advertindo as pessoas, e esclarecendo que havia a possibilidade de alguém segui-lO motivado por uma razão errada ou espúria.

Os escritores das Epístolas reiteraram a mesma mensagem, inculcando-a nos cristãos da Igreja Primitiva.

Não seria bom que examinássemos a nós mesmos, fazendo a mesma pergunta, ou seja, se O estamos seguindo motivados por uma razão certa ou errada? Por que estamos seguindo a Jesus? Qual é o significado exato que vemos em nossa ligação com a igreja que freqüentamos? Essa é a pergunta que eu gostaria de examinar com vocês à luz deste texto. Sempre achei que este capítulo (João 6) é um exemplo clássico de todo esse assunto. O evangelista, sob inspiração divina, parece ter reunido neste capítulo a maior das razões falsas ou espúrias pelas quais homens se contentam em seguir a Cristo : todas estão agrupadas aqui. Observe a divisão do texto.

“Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás”. Por outro lado os doze permaneceram. Aqui está a divisão — os muitos que voltaram atrás e os poucos que permaneceram. Muitos O tinham seguido pela razão errada. Poucos O seguiram e O acompanharam motivados pela razão certa e verdadeira.

Vamos examinar, antes de tudo, algumas das razões erradas pelas quais homens seguem a Jesus Cristo. Existem pessoas que se unem a uma igreja pela simples razão que muitos outros estão fazendo a mesma coisa. Vemos claramente no Novo Testamento, bem como na história subseqüente da Igreja Cristã, uma vasta expressão de psicologia das massas. Há pessoas que sempre estão prontas a se unirem a uma multidão, e sempre ficam fascinadas por aquilo que todos os demais parecem estar fazendo. Há pessoas que estão numa igreja pela simples razão que alguém as levou ou então viram outras pessoas indo a essa igreja. Nunca perguntaram a si mesmas: “Porque estou na igreja?” Parece ser a coisa certa a fazer: os pais e os avós fizeram isso; é uma tradição em sua localidade; outros fazem isso, e, portanto, elas também fazem. Há pessoas que simplesmente “nadam com a corrente”. Fazem algo porque outras pessoas estão fazendo aquilo. Deus permita que nenhum de nós nesta igreja irrefletidamente, sem jamais ter considerado o significado de ser membro de igreja, e o que está envolvido. Houve muitos que seguiram o Senhor simplesmente porque viram que as multidões O rodeavam. Que o Senhor nos liberte de ser parte desse grupo!

Outra razão foi mencionada pelo Senhor no versículo 26: “Na verdade na verdade vos digo que me buscais, não pelo sinais que vistes, mas porque comeste do pão, e vos saciaste”. Que Ele quis dizer com isso? Ele estava sugerindo que essas pessoas tinham uma razão puramente mercenária e materialista para segui-lO. Vieram correndo após o Senhor, e aparentemente O estavam adorando; mas não estavam realmente interessadas no aspecto espiritual, no divino e no sobrenatural. Por que O seguiram? Porque receberam dEle aquilo que as atraía — os pães. Estavam ansiosas por alimento, e por essa razão egoísta é que seguiram a Jesus, porque receberam dEle aquilo que desejavam. Não sei se esta razão é uma razão muito comum para que as pessoas se unam à Igreja, pois a religião não é tão popular hoje em dia como era no passado; porém temos que concordar que talvez a verdadeira tragédia era que os homens tinham a tendência de se unirem à Igreja porque ela lhes dava posição, reputação, poder e influência. Infelizmente muitos há que se uniram à Igreja pelo motivo que isso beneficiaria seus negócios ou sua profissão; fizeram uso da Igreja para o avanço de seus interesses ou desejos pessoais. São as pessoas que seguem a Cristo porque desejam comer do pão que Ele dá, porque querem se satisfazer. Talvez devêssemos incluir nesta categoria aqueles que seguem a Cristo porque estão interessados na doutrina do perdão dos pecados, e porque querem tirar proveito da Sua cruz; eles não querem sofrer o castigo eterno; não gostam da noção do inferno. Cristo anuncia perdão dos pecados, e eles O seguem, não porque desejam santidade ou porque realmente O amam, mas só porque temem o inferno e estão com medo do castigo eterno. Esta são as pessoas que tornam até mesmo a cruz de Cristo em mercadoria, e a usam como um manto para cobrir seus pecados. Usam a cruz para o proveito dos seus próprios desejos pessoais e mercenários. Seguem a Cristo somente para os seus próprios fins, e não porque Ele é o Filho de Deus e o Salvador do mundo.

E então, no versículo 2 deste capítulo, encontramos outra coisa muito interessante: “E grande multidão o seguia; porque via os sinais que operava sobre os enfermos”. Ora, este é um tipo de pessoa muito interessante, e que encontramos com freqüência nas páginas do Novo Testamento. Temos uma descrição do mesmo tipo de pessoa no segundo capítulo: “E, estando ele em Jerusalém pela páscoa, durante a festa, muitos vendo os sinais que fazia, creram no seu nome” (João 2:23). Este grupo dos que estão preocupados com os aspectos externos da região parece ser bem grande na época atual. São as pessoas que estão interessadas no fenômeno da religião parece ser bem grande na época atual. São as pessoas que estão interessadas no fenômeno da religião; elas seguem a Jesus porque vêem os milagres que Eles realiza. O poder miraculoso de Cristo as atrai. Se há manifestação de poder sobrenatural, elas sempre estão lá. São atraídas pelo fenômeno da religião, e não pela verdade da religião. Nosso Senhor Jesus Cristo realizou muitos milagres; e Ele o fez deliberadamente. Seu alvo e propósito ao realizar milagres foi manifestar o Seu poder. Todavia, notamos algo interessante. Ele não confia naqueles que estão mais interessados nos milagres do que nEle mesmo ou naqueles que estão mais interessados no fenômeno do que no poder. Jesus Cristo, pela graça de Deus, ainda opera milagres neste mundo pecaminoso, e ainda transforma a vida das pessoas. Ainda existem fenômenos gloriosos em conexão com o reino de Deus em Cristo Jesus. Mas Cristo, o Filho de Deus, não veio à terra simplesmente para realizar milagres ou fazer obras maravilhosas, e assim manifestar o Seu poder; e nem veio apenas para mudar nossas vidas; Ele veio, antes de tudo, para purificar para Si um povo Seu especial, zeloso de boas obras. Ele veio para reconciliar os homens com Deus, e para nos levar ao conhecimento da verdade. Devemos nos precaver de segui-lO simplesmente porque estamos mais interessados no fenômeno do que na verdade em si.

E isso me traz ao último grupo, que é encontrado nos versículos 14 e 15, onde lemos: “Vendo pois aqueles homens o milagre que se Jesus tinha feito, diziam: este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo. Sabendo pois Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte”. Temos aqui um grupo muito interessante de pessoas, que O seguem porque estão completamente enganadas a respeito de Cristo e de Sua mensagem. Qual foi o milagre que tinham visto? Foi o dos cinco mil sendo alimentados. Essas pessoas, de acordo com o contexto, tinham seguido o Senhor por alguns dias ou talvez semanas. Tinham ouvido as Suas Palavras; mas foi somente quando viram o milagre que disseram: “Este é o Messias. Este é o profeta que havia de vir”. Então lemos que conspiraram entre si e concordaram que deviam se aproximar dEle e levá-lO à força para Jerusalém, a fim de O proclamarem rei. Jesus, porém, percebeu sua intenções e Se retirou para um monte, permanecendo ali sozinho. Aqueles judeus tinham uma concepção política do reino de Deus. Pensavam no Messias como um libertador político, como alguém que os libertaria da escravidão de Roma e Se estabeleceria como rei em Jerusalém, onde reinaria supremo sobre todos os Seus inimigos e sobre o mundo todo. E esses homens se aproximaram dEle com essa idéia em suas mentes; mas Ele os repeliu. E aqueles homens acabaram sendo parte do grupo que se afastou dEle. Quantos, ainda hoje, pensam em Jesus como um revolucionário político, ou um reformador social! Quantos ainda hoje pensam no reino de Deus como sendo primeiramente secular e político! Quantas pessoas pensam que uma das funções principais da Igreja é tratar da condição social do mundo, e assumir o seu lugar nos vários setores e níveis da vida humana, e decidir as grandes questões relacionadas com a indústria e a política e assuntos internacionais! Quantas pessoas ainda pensam em Cristo como um reformador social ou agitador político! E quantas outras pensam nEle como o pálido Galileu que mantém os homens à distância, e que é refinado demais até para tocar no mundo. Há os que pensam nEle como o grande Artista, ou o grande Asceta ou o incomparável Filósofo. Há os que se aproximam da Bíblia como se fosse apenas uma coletânea de jóias literárias. Se tirássemos todos esses grupos da Igreja, eu me pergunto quantos restariam! Receio que esse “muitos” assumiria proporções alarmantes!

Creio que não preciso me justificar se lhes fizer a pergunta: “Vocês seguem a Cristo? Já se defrontaram com esta pergunta? Já encararam estas possibilidades face a face?” Essas pessoas que eu mencionei estavam seguindo a Cristo. Tinham estado com Ele por vários dias; consideravam-se Seus discípulos. Mas então lemos que muitos dos Seus discípulos, Seus seguidores, aqueles que tinham ouvido Suas palavras, já não andavam mais com Ele. Porque é que nós O seguimos? Somos motivados pela razão correta ou somos culpados de seguirmos motivados por uma dessas razões falsas? Qual é a verdadeira razão para seguirmos a Cristo? A resposta naturalmente está nas grandes palavras de Simão Pedro: “Então disse Jesus aos doze: quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe pois Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Ora, podemos nos alegrar com esta resposta, pois, como o contexto nos revela, o Senhor testou a fé do doze. Muitos estavam se afastando. “Lá vão eles; estão vendo?” diz o Senhor, voltando-Se para os doze. “Eles ouviram os mesmo sermões que vocês, e viram os mesmos milagres; vocês estão exatamente na mesma posição. Querem ir com eles? Vocês tem Me seguido pela mesma razão que eles? Porque, se é assim, prefiro que não Me sigam. Vocês também querem retirar-se?” E Simão Pedro respondeu com confiança e com certeza. Temos aqui, em suas palavras, o mínimo irreduzível do verdadeiro discípulado cristão. Que significam essas palavras de Pedro? Precisamos dividi-las e analisá-las. “Senhor, para quem iremos nós?” ele indaga. Devemos interpretar essa frase unicamente de uma forma emocional? Como se Pedro tivesse se voltado para o Senhor, dizendo: “Tivemos tantos momentos maravilhoso juntos, e a vida seria impossível sem Ti”. Era simplesmente uma ligação emocional? Sim, era, mas também era muito mais que isso. Era uma definição de fé básica e profunda. “A quem iremos, se Te deixarmos?” Porque ir a alguém? Por que Pedro faz essa pergunta? Porque aqui descobrimos a declaração primária da confissão cristã. Pedro pergunta: “A quem iremos nós?” porque entende que não pode salvar-se a si mesmo. Pedro havia compreendido há muito tempo sua própria condição sem esperança. Ele estava buscando salvação em alguém fora de si mesmo. E, tendo enfrentado a lei, e tendo visto a João Batista, e tendo contemplado a face de Cristo, ele tinha reconhecido há muito tempo a sua condição diante de Deus. Junto com os seus compatriotas, ele estivera aguardando o Messias. Todavia, Pedro não se limita a admitir que não pode salvar a si mesmo. Ele também declara aqui, peremptoriamente, que tem certeza absoluta que ninguém mais pode salvá-lo senão Cristo. A quem mais podemos seguir? Não há nenhum outro. “Eu não posso me salvar a mim mesmo e nenhum homem pode me salvar”, diz Pedro. Sempre há esta declaração negativa na confissão cristã primária e básica. Eu me pergunto em quê, ou em quem, estamos depositando a nossa confiança e a nossa fé? O homem que tem qualquer alternativa concebível para Cristo não é um cristão. A que nos apegamos, quando pensamos em morte e eternidade? Ainda estamos confiando nessa ilusão de um mundo que está, supostamente, avançando e se desenvolvendo? Ainda imaginamos, credulamente, que meras realizações intelectuais podem nos preparar para o céu?

“Não posso salvar a mim mesmo”, diz Pedro. “Homens não podem me salvar. O mundo não pode me salvar. Mas eu creio que Tu podes”. E ele dá esta razão: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Tu tens as palavras da vida eterna”. Na face de Jesus Cristo, Pedro viu a Deus.

Vocês já tomaram uma posição com Simão Pedro? Já compreenderam sua própria falência e pecaminosidade? Já disseram a Cristo: “Tu tens que me salvar, e Tu somente?” Pedro não se contenta em apenas declarar que Cristo é o Filho do Deus vivo. Ele diz: “Não podemos Te deixar, pois Tu tens as palavras da vida eterna”. Foram essas palavras de Cristo que fizeram com que os outros se retirassem. Essas pessoas tinham seguido a Cristo; tinham escutado Seus sermões; tinham observado Seus milagres. Então nosso Senhor, em uma de Suas mensagens, comparou-Se a Si mesmo com o maná mandado do céu, e continuou dizendo que Ele era o pão da vida, e quem não comesse da Sua carne jamais poderia ter vida eterna. “Muitos pois dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: duro é este discurso”. E finalmente acabaram se afastando por causa dessas palavras. Ele falou que os homens deviam comer da Sua carne e beber do Seu sangue, e estabeleceu isso como uma condição essencial para a vida eterna. “Como pode ser isto?” perguntaram. Foram essas palavras que os ofenderam. Pedro, no entanto, diz: “Eu não entendo tudo, mas eu creio”. Meus amigos, não basta atribuirmos divindade a Jesus de Nazaré de forma singular. Não é suficiente que creiamos sem Seus milagres e em Suas obras sobrenaturais. Nós somente estamos seguindo Cristo, real e verdadeiramente, quando cremos que é Ele quem opera a nossa salvação através do Seu corpo quebrado e Seu sangue derramado. “Eu não entendo a doutrina da expiação; não posso compreender seu significado; parece absurda, e quase imoral”, vocês dizem. Não estou pedindo que entendem isso tudo. Simão Pedro não entendia, mas assim mesmo a aceitou, e entregou a sua vida a Cristo. Jesus Cristo Se oferece a nós, crucificado e ressurreto — alguém que foi ferido pelos açoites que nós merecíamos, que deu Sua vida em resgate por muitos, que, pelo Seu Espírito Santo, quer habitar em nós; que não só nos liberta da culpa do nosso pecado passado, mas que também nos liberta do poder do pecado, e da poluição do pecado, e que está adiante do nós, dizendo: “Apropriem-se de Mim”.

“Quereis vós também retirar-vos?” Milhares estão se retirando. Na verdade, esta nação e o mundo estão se tornando cada vez mais ímpios. O homem, em seu orgulho intelectual, está rejeitando a Palavra de Deus. “Quereis também vos retirar-vos?” Que todos nos voltemos para Ele, como Simão Pedro, dizendo: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus”.


[1] – D.M. Lloyd-Jones, “Sermões Evangelísticos” , Editora PES.

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