MULTIDÃO, SEGUIDOR E DISCÍPULO

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MULTIDÃO, SEGUIDOR E DISCÍPULO

O discipulado é uma condição fundamental para que haja unidade entre nós. Dizemos que praticamos e temos até ir­mãos que são chamados de discipuladores, mas são realmen­te discípulos? São discipuladores de quem? Quem os segue? Quem os ouve? Precisamos definir melhor nossos termos e esclarecer expectativas.

Quero primeiro dizer o que não é discipulado, para depois defini-lo com mais precisão.

Discipulado não é uma sala de aula cheia de alunos com um professor à frente. Salas de aulas são necessárias para se passar uma visão e até formar alguns discipuladores, mas uma reunião desse tipo não é discipulado.

Outra coisa que não é discipulado: um relacionamento de aconselhamento esporádico, no qual uma pessoa, quando tem alguma necessidade ou problema, procura alguém mais experiente, um pastor ou um líder, para receber conselho e uma luz sobre determinada circunstância.

Por que nada disso é discipulado? Porque o cerne do disci­pulado não é uma programação humana ou a estrutura de uma organização, mas vínculos fortes entre alguém com coração ensinável e um discipulador aprovado.

Discipulado é “vínculo íntimo, sólido e entranhável entre duas pessoas discipulador e discípulo”. O discípulo, que deve ser aberto, maleável, tratável e ter um desejo de ser formado em Deus, será conduzido por um discipulador para levá-lo a uma posição mais elevada em Deus, de aprendizado da Palavra e de vida. O discipulador é alguém que está sendo discipulado por outra pessoa e cuja vida cristã global já foi devidamente aprovada.

Entrar no padrão do discipulado é entrar no estilo de vida de Jesus. Discipulado é viver uma vida de renúncia. Mas, por que devemos renunciar? Porque essa é a única forma que Deus tem para produzir em nós o quebrantamento e uma real dependên­cia dele, que é o caminho para a maturidade.

 1 – Jesus e a multidão

O primeiro nível de relacionamento que Jesus travou foi o relacionamento com a multidão: “Seguia-o numerosa multi­dão porque tinham visto os sinais que Ele fazia na cura dos enfermos” (João 6.2).

O ministério de Jesus foi um ministério de multidões, mas Ele nunca as priorizou. Por quê? Porque o nível de resposta e de compromisso da multidão é pequeno, inseguro, desconhe­cido; o nível de impacto e transformação da Palavra sobre ela é pequeno. Ele deu prioridade aos vínculos profundos que tinha com os discípulos. A Bíblia diz que a multidão o seguia por causa dos sinais e das curas que Ele fazia. O que quer dizer isso? Quer dizer que a multidão, por não ter um relacionamento com Jesus, não era conhecida em suas motivações, e quem não é conhecido não é confíável.

Quando exigimos algo da multidão, que só poderíamos co­brar dos discípulos, ela nos deixa. Grande parte dos que esta­vam com Jesus, depois se voltaram contra Ele. As opiniões da multidão oscilam e fluem de acordo com o conjunto da massa. Por isso, Jesus não priorizava a multidão. Ela define o lugar de pessoas que não têm compromisso, que não estão dispostas a pagar os custos do discipulado, de ter um compromisso de andar na luz, de submissão, de entrar no padrão dado pelo discipulador. A multidão nunca teve a decisão de abraçar a cruz, por isso Jesus não a priorizava. O seu relacionamento era distante, ela O via de longe e esporadicamente. A vida íntima de Jesus era um mistério para aquela gente. Certa vez o Senhor perguntou a Seus discípulos: “Quem diz o povo ser o Filho do Homem? E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas” (Mateus 16.13,14). Dizia-se de tudo sobre quem Ele era, porque não havia laços de compromisso e o relacionamento era determinado por um contato impessoal. A multidão vê a Jesus de longe, por isso possui uma percepção distorcida dEle.

O QUE LEVA ALGUÉM A SER MULTIDÃO?

Evidentemente, existem pessoas que vivem nesse nível de relacionamento por não terem recebido instrução ou ensino. Diríamos que são multidão involuntariamente. Mas a maioria faz uma opção por esse nível de relacionamento por inúmeras razões. Vamos ver algumas.

  1. Decepção com estruturas e líderes

Relações frustrantes, escândalos, feridas profundas e decep­ção com a estrutura da igreja produzem crentes assim: descren­tes de tudo e de todos, que apenas seguem adiante, sem nenhum compromisso com o Corpo. Infelizmente tais pessoas não per­cebem que a desilusão é o começo do crescimento. Enquanto idealizamos nossos pais somos apenas crianças, mas quando os vemos como são, começamos a entrar na maturidade.

  • Medo de serem conhecidas

O temor da rejeição, da decepção, da exploração ou da ma­nipulação leva as pessoas a fugirem de um compromisso de discipulado. Tais receios são legítimos. Ninguém gosta de ser usado por outros. Todavia, isso não é uma justificativa para ficarmos à parte do mover de Deus e da vida da Igreja.

  • Ignorância do melhor de Deus

Alguns acham que a vida espiritual miserável em que vivem é o único modelo de vida com Deus. Seus problemas são seus e pensam que ninguém os ajudaria ou entenderia. Crêem em sua ignorância e que essa é a vontade de Deus para a vida deles.

  • Por participarem de “obras mortas”

 Existem igrejas que produzem multidões porque não pos­suem um fluir do Espírito e da Palavra que os confrontem e os levem à intimidade com Deus. São igrejas-berçário que se contentam em fazer programação para entreter os crentes em vez de desafiá-los a uma vida profunda. São os crentes de campanha que pulam de um lugar para outro procurando a unção mais poderosa.

  • Falta de compromisso mesmo.

Há pessoas que sabem o que Deus quer, convivem com pessoas de visão, no entanto, optam por uma vida descompromissada. Nunca têm certeza de nada, porque também nunca se deixaram tratar pela Palavra. São pessoas que não têm vida abundante com Deus, não têm vida frutífera, não têm vitórias. São crentes centralizados em si mesmos. Seus compromissos são totalmente baseados no interesse pessoal. Todos os seus projetos vêm antes do interesse por Deus ou pela Igreja. Não se preocupam em dar satisfação a ninguém, mandam em seu próprio nariz.

Talvez o motivo que traz a multidão à igreja seja um mero compromisso religioso, ou a necessidade de libertação em al­guma área, a necessidade de cura, ou apenas para manter um agradável convívio social. Enfim, são pessoas completamente independentes, cujos motivos são desconhecidos. Conseqüentemente, crescem até certo ponto e então ficam estagnadas. Seu processo de crescimento é comprometido porque cres­cem no máximo até ao nível do relacionamento periférico e raso que construíram na igreja: superficial com o povo, super­ficial na Palavra e superficial com Deus. O crescimento deles é determinado pelo relacionamento superficial que mantêm com Deus e com a liderança. O pouco que eles absorvem do ministério da Palavra não é suficiente para penetrar na vida deles e produzir frutos.

Características da multidão

  • Relacionamento distante e impessoal. •Diálogos sempre muito superficiais, conversas frívolas e fúteis. •Fraca resposta ao desafio da Palavra de Deus. •Não aceitam ser cobrados ou confrontados em sua conduta. •Não se deixam tratar por ninguém. •Possuem motivação desconhecida e, portanto, não são confiáveis para qualquer obra ou posição de responsabi­lidade e liderança. •O nível de crescimento é baixo. •São totalmente independentes. •São infantis, confusos, religiosos e materialistas. • Nada herdam espiritualmente de seus líderes. •Fogem de tomar a cruz, pois não toleram o desprazer. •Possuem uma vida egocêntrica. •Vivem de aparência.

 2 – JESUS E OS SEGUIDORES

O segundo nível de relacionamento de Jesus foi com aquelas pessoas que O procuravam para serem aconselhadas. Nós te­mos alguns exemplos. O primeiro é Nicodemos em João 3. Ele não era propriamente da multidão, tinha um relacionamento mais próximo com Jesus. Todavia, não se obrigava a obedecer a Palavra que Ele lhe dava. O fato de ele ir procurar Jesus à noite mostra que ele tinha vergonha de sua fé e estava preocu­pado com a opinião dos outros ao seu respeito. Entretanto, ele ainda desejava saber mais do Senhor. Seu relacionamento com o Senhor era mais próximo do que o da multidão, mas não o suficiente para se tornar um discípulo.

O segundo exemplo de seguidor ocasional é o jovem rico. O jovem rico era um homem que não pertencia à multidão, ele simpatizava com Jesus. Esta era a característica que mais se destacava nele: a fidelidade religiosa e até legalista. Mas, ao ser confrontado em sua superficialidade, voltou atrás. Quando Jesus mostrou-lhe a cruz, logo retrocedeu.

Há uma classe de pessoas na igreja que sempre procuram os pastores e líderes para aconselhamento, são assíduos e par­ticipam assiduamente das programações. Com alguns nos damos bem, por que são pessoas sinceras, submissas, mesmo que não conheçamos bem; com outras, nos damos muito mal, porque são pessoas que roubam ovelhas, dividem a liderança e o Corpo. São cheios de orgulho e de presunção. Procuram títulos, cargos e posições, ou seja, estão em busca do reino, do poder e da glória para eles mesmos.

É interessante notar que a medida de crescimento dessas pessoas, apesar de ser um pouco superior ao do crescimento da multidão, é limitado. O limite é a obediência aos princípios exteriores de conduta da Palavra de Deus, o cumprimento das tradições da igreja local e o relacionamento de aconselhamento com a liderança. Enquanto há conveniência, enquanto se faz o seu gosto, en­quanto são vistas pela multidão no lugar de liderança, enquanto recebem atenção e têm cargos, caminham bem e em unidade, mas quando começam a ser confrontadas, a ser tratadas, quan­do têm de abrir mão de posições ou de razões pessoais, quando vêm as pressões, se escandalizam e fogem do compromisso que haviam firmado anteriormente. São cegas quanto às circuns­tâncias que Deus gera para tratar com elas. Estão, de um modo natural, com os olhos fixos nas situações, nas injustiças supostamente cometidas contra ela, no líder que falhou com elas, na “política da igreja” e, sem perceberem, estão tomadas por sentimentos de autopiedade ou justiça própria que paralisam sua caminhada. Sempre estão esperando que a liderança volte atrás e reconsidere. Estão com os olhos presos às circunstân­cias naturais, ao invés de estarem com o entendimento aberto sobre as circunstâncias espirituais.

Características dos seguidores ocasionais

  • Possuem um relacionamento frequente, mas superficial. •Os diálogos são abrangentes, mas não permitem o trata­mento do caráter. •Dão uma resposta superficial e até religiosa à Palavra. •Estabelecem ligações por conveniência com a liderança. •Fogem de cobrança e de confrontação. •Vivem estagnadas na apatia espiritual. •São fiéis às programações, normas e preceitos da estrutura religiosa, mas não se deixam tratar pela cruz.

3 – JESUS E OS DISCÍPULOS

O terceiro nível de relacionamento que Jesus construiu foi com Seus discípulos. Aqui, nesse nível, a proximidade é total, a intimidade e a liberdade com a qual se expressa pensamentos e sentimentos são completas; o compromisso e a renúncia, também são totais. As motivações dos discípulos e o potencial de resposta de cada um são intimamente conhecidos e, sobre essas bases, os desafios são realizados. O discipulado nos fala da aceitação do preço da cruz.

É interessante vermos que Jesus pegou homens comuns, analfa­betos, sem formação religiosa alguma e passou a esses homens todo o Seu ministério, unção e autoridade. Jesus passou o Seu “manto”. É importante entendermos que Ele não deixou por herança o ministério para a multidão.

Somente os discípulos receberam um ministério. Voltando para o Antigo Testamento, vemos que a formação do ministério profético era realizada através de um vínculo de discipulado no qual o discípulo do profeta servia e tinha uma vida em comum com o profeta a quem estava ligado. A Palavra diz que Eliseu deitava água nas mãos de Elias. Eliseu havia se disposto a se submeter, a seguir e a servir Elias (2 Reis 3.11). Abdicou de viver independentemente para ter vínculos com ele.

É importante vermos que, quando Elias foi arrebatado, o seu “manto”, que representava toda a sua unção, o seu poder e o seu ministério profético foi passado apenas para Eliseu, seu único discípulo. Da mesma forma, é necessário entender que, antes de alguém ser enviado para algum lugar, ou liberado para ocupar urna função qualquer na Igreja, ou estar à frente de qualquer obra como líder, obreiro ou pastor, é necessário estabelecer fortes vínculos de discipulado.

Muitos têm priorizado o “ir” sem o “ser”, o realizar a obra de Deus, ao invés de enfatizar a necessidade de vida, de formação do caráter de Cristo, como condição para isso. Antes de dar qualquer coisa para alguém fazer, precisamos aprovar essa pessoa através de vínculos de discipulado, em confiança, em amor e em sujeição.

Discipulado nos fala de pegarmos alguém no nível do vale e o levarmos para o nível do monte. Fala-nos de ensinar e pra­ticar juntos as disciplinas espirituais, corrigindo os princípios de vida errados enraizados em sua alma, as heranças familiares, as formas erradas de responder às falácias do diabo.

Só o discipulado equilibrado pode gerar líderes verdadeira­mente aprovados. Todavia, é importante ressaltarmos que não podemos levar alguém além de onde nós mesmos já chegamos. O discípulo não pode ser superior ao seu mestre. Assim, o discipulado é uma visão de reprodução, de multiplicação. Pre­cisamos ser cuidadosos para não permitirmos discipuladores que possam reproduzir, na vida igreja, um padrão fraco ou diferente da visão.

Discipulado é uma questão de apropriação. No relacio­namento de discipulado, o discipulador plantará a Palavra, instruíra nos princípios de Deus, armará, equipará, adestra­rá, tornará o discípulo íntimo das armas, torná-lo-á perigoso espiritualmente contra as trevas, e então, enviá-lo-á.

Não são programas que instruirão discípulos. A Palavra diz que é o Espírito Santo quem gera crescimento em nós. Na Carta aos Filipenses, lemos que “Aquele que em vós começou a boa obra há de aperfeiçoá-la” (Filipenses 1.6). Assim, quando oramos pedindo a Deus que nos forme, Ele responde nos levando a situações que irão nos quebrar e moldar. Ele é um Deus prá­tico. Devemos responder positivamente nessas situações de tratamento. Dessa forma, em um vínculo de discipulado, não existe um currículo previamente estabelecido a ser cumpri­do, mas simplesmente nos abrimos para nos relacionarmos aguardando as circunstâncias geradas pelo Espírito de Deus.

A Palavra nos diz no Evangelho de Mateus: “Percorria Jesus toda a Galiléia ensinando nas Sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mateus 4.23). O aspecto de ensino a um público é apenas uma das formas de ensino usadas por Jesus. Essa forma de instruir traz resultados, mas não é completa. Jesus era também um professor, mas investiu mais no discipulado. Uma grande perda é nos prendermos exclusivamente ao ensino de sala de aula. Basicamente, só existem professores em nossas igrejas. Precisamos desesperadamente de discipuladores.

Finalmente, no final do Evangelho de Mateus, fechando seu ministério, Jesus orienta a Igreja a ir e a fazer discípulos, ensinando-os a guardar a Palavra. Ele não disse: “Ensine-os a entender”, mas, “Ensine-os a guardar”. O ensino de púlpito atinge tanto a multidão quanto o seguidor ocasional, mas não faz discípulos. O que transformou as vidas, tornando-as semelhantes a Ele, foi um vínculo sólido e profundo de discipulado.

O nível de ensino que precisamos praticar é o de “ensinar a guardar”. Só se atinge esse nível, com profundo compromisso de relacionamento, por meio do qual eu posso ver a realidade de vida do meu discipulador e entrar naquela realidade. Eu vejo os níveis elevados em Deus que ele atingiu e caminho, do nível de vale onde estou, até chegar ao nível de monte, onde ele está.

Precisamos vencer nossos medos e chamar alguns discípulos para estarem mais próximos de nós.