A IGREJA LIVRE E SEUS DESAFIOS – Pr Carlito Paes

A IGREJA LIVRE E SEUS DESAFIOS

 Igreja da Cidade em São José dos Campos

Passados 21 séculos, desde o derramar do Espírito Santo sobre a igreja de Jerusalém em Pentecostes até nossos dias, a Igreja de Cristo segue firme como uma grande força em movimento ao redor da Terra, apesar dos erros e pecados de seus líderes humanos. Neste domingo de oração pela Igreja Perseguida, vamos parar para refletir um pouco sobre a realidade da Igreja Livre no Brasil e orar pelos novos anos que virão, para que sejam ainda melhores.

Há pouco tempo, no início da década de 80, fruto do desgaste e estagnação das igrejas denominacionais históricas, chegou ao Brasil, oriundo basicamente dos EUA e da Ásia, os ventos do movimento de crescimento de igrejas locais. Até então, uma grande igreja era composta em média por 500 pessoas. As novas comunidades evangélicas surgiram, quebrando paradigmas e ganhando a nova geração. Estas novas igrejas foram estabelecidas por pastores jovens, ousados e visionários, que em sua maioria deixaram suas denominações históricas e aderiram ao movimento por meio do evangelismo contextualizado, pregação bíblica prática, louvor comunitário com bandas, forte ministério com jovens, estruturas mais leves e administração menos burocratizada.

O resultado não poderia ser outro, as igrejas cresceram exponencialmente a partir das capitais. Passados mais de 30 anos, em sua maioria, estas igrejas, inicialmente locais, deram lugar a novas denominações que se espalharam por todo o país com seus erros e acertos. Como efeito colateral influenciaram, diretamente as igrejas convencionais. Hoje, a situação mudou bastante e temos uma nova realidade, onde não basta mais falar em crescimento de igreja. Precisamos ir um pouco além, pois quando falamos de crescimento de igreja, necessariamente, não falamos de igreja saudável. Claro que nem tudo que cresce é saudável, mas o que é saudável cresce de forma natural. Uma igreja que não cresce não está saudável, a despeito da opinião de seus líderes.

Depois da realidade do chamado fator neopentecostal e suas variantes bem similares, temos de um lado extremo um crescimento, que podemos chamar de supermercado da fé, ou seja, igrejas que cresceram muito numericamente por adesão nas sedes e nas franquias, mas que não apresentam um crescimento integral do Evangelho na vida das pessoas e na sociedade. São igrejas que têm produzido, fora algumas exceções pela graça de Deus, mais “consumistas gospels” do que necessariamente discípulos de Cristo, que estão cumprindo o Grande Mandamento (Mateus 22.37-40) e a Grande Comissão (Mateus 28.19,20), gerando saudáveis discípulos de Cristo e enviando missionários a todas as nações. 

De outro lado também extremo, há igrejas denominacionais históricas voltadas para si e suas denominações, que presas a uma estrutura pesada, cara e, arcaica, importada e descontextualizada em todo o país, independente da denominação, de norte a sul, estão estagnadas ou em declínio. Muitas destas igrejas se tornaram em sua prática “jornal de ontem”, isto é, ninguém mais lê, mesmo tendo como base a Palavra Viva de Deus. Como um amigo disse-me: “Existem muitas igrejas que se o século XX voltar, elas estão prontas”.  

Se de um lado temos estas igrejas dentro do movimento neopentecostal, que se tornaram franquias de supermercado gospel, onde a busca pela bênção de Deus se tornou um fim em si mesmo e, de outro lado, temos igrejas históricas que pararam no tempo, surge a questão: “Será que somente existem estes dois extremos de igreja?”. A resposta é não. Embora elas ainda sejam a maioria, existe um grupo crescente de grandes igrejas que decidiram trilhar o caminho do crescimento, da saúde e do equilíbrio, não explosivo, mas saudável. São igrejas que, hoje, estão servindo por meio de princípios de discipulado pessoal, tendo células organizadas em rede de ministérios, que buscam o equilíbrio dos propósitos bíblicos de Deus e, com isso, de forma equilibrada e saudável, estão servindo as suas comunidades e crescendo.

Quando assumi como pastor adjunto e depois titular, nossa igreja era uma boa igreja, tradicional em transição, mas que ainda tinha uma estrutura muito pesada e centralizada em apenas um único local. Há 18 anos, a igreja possuia 620 membros e era dirigida pelas celebrações e púlpito. Hoje, passamos de 12 mil discípulos e somos uma igreja operante, forte, saudável e crescente. Há 15 anos, temos aplicado os princípios de vida e igreja com propósitos. A igreja conta com mais de 750 células, que estão divididas em 4 diferentes redes (crianças, jovens, adultos e Igrejas da Cidade) e 140 ministérios organizados. Temos aplicado com muita efetividade o Ministério Celebrando Recuperação e, também, um ministério social consolidado com a ABAP (Associação Beneficente de Ajuda ao Próximo). Temos descentralizado as celebrações e ministérios da igreja por meio da estratégia de multicampi na cidade (4 diferentes lugares em São José dos Campos), da plantação de novas igrejas (10 igrejas em 4 anos de implementação) e, até o fim do ano, serão 50. Por fim, temos uma rede de mentoria de igrejas (350 igrejas em todo país).   

Atualmente, não podemos simplesmente afirmar que desejamos ver o crescimento da igreja, mas precisamos de igrejas contextualizadas e saudáveis. Por isso, escolhi trabalhar dentro dos princípios de Igreja com Propósitos, uma filosofia ministerial que leva a igreja a crescer de fora para dentro e não de dentro para fora. Uma coisa fantástica dentro do movimento de Igreja com Propósitos é a fácil adaptação e contextualização dos seus princípios à realidade de cada igreja local. Não se trata de um modelo eclesiástico ou de um simples paradigma baseado em alguma filosofia humana. Ter uma vida e uma igreja dirigida pelos eternos propósitos de Deus é uma forma natural de vida. O resultado desta sistematização e aplicação destes princípios bíblicos é a saúde gerada pela sinergia e equilíbrio dos 5 propósitos bíblicos na seguinte ordem: missões, adoração, comunhão, ministério e discipulado.

Sabemos que a igreja como organismo vivo tem passado por muitas enfermidades. Todavia, o “Senhor da Igreja” deseja que sua igreja esteja saudável para cumprir sua missão integral neste mundo e, para isso, Ele tem levantado profetas em nossa geração. Podemos dizer que realmente estamos vivendo os tempos da segunda Reforma da igreja. A primeira Reforma, no século XVI, foi doutrinária. Agora no século XXI, 5 séculos depois, estamos participando de uma reforma comportamental, de agenda e de visão. Não tenho dúvida, aos poucos as pessoas perceberão que os propósitos funcionam e simplificam nossas vidas de tal forma, que inevitavelmente seremos atraídos a este estilo de vida bíblico. Igreja e vida com propósitos não é um monumento e, sim, um movimento onde cada igreja é singular e única. 

Estive semana passada com o Pr. Rick Warren, na Igreja de Saddleback (EUA), numa das celebrações e em uma reunião de seu time de pastores. Foi lindo ver como nossas igrejas têm um mesmo DNA saudável, mas, ao mesmo tempo, são diferentes. Posso aprender e me inspirar em outras igrejas, mas não preciso copiar. Os propósitos não foram uma visão para igreja, isto é de Deus para cada igreja local e pastoral, – visão é pessoal e intransferível, – são princípios bíblicos que geram equilíbrio, saúde e força ao organismo e, assim, geram um crescimento saudável.

Como mentor de pastores e líder de uma rede de igrejas por meio dos propósitos não quero formar prosélitos de sistemas, estratégias e modelos, mas, sim, inspirar cada igreja a receber a visão de Deus e contextualizar os materiais e estratégias que podemos aprender uns com os outros e sermos guiados pelos valores macros do Reino para produzirmos frutos permanentes, que são vidas transformadas pelo discipulado em Cristo.

A igreja não pode parar como um monumento, mas deve avançar na missão dada pelo Senhor, sendo guiada pelo Espírito Santo e buscando o novo mover de Deus. Creio que Deus está “movendo as águas”. Vamos continuar a avançar, buscando através dos dons de governo dado por Deus para Sua igreja os desafios que Ele tem para cada um, segundo o chamado da igreja. Como está escrito: “E Ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado” (Efésios 4.11 e 12).

Que o céu venha governar a Terra! Vamos juntos em santidade, oração e muito trabalho nos unirmos a Deus em Seu agir em nosso meio. Que Deus livre a Igreja Perseguida ao redor da Terra. Que a Igreja Livre não se perca e nem se distraia do foco da sua missão, que fuja da religiosidade estéril e da acomodação do hedonismo crescente de uma sociedade cada vez mais individualista, iníqua e injusta. Que venha o futuro de Deus, estamos juntos Nele.

Autor: Pr Andre LDA

Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Brasil - ISBL, estudou também na Faculdade Teológica Sul Americana, convalidando o curso na Unicesumar. Especialista em docência no ensino superior pela Unicesumar e Liderança, Plantação e Revitalização de Igrejas pelo Seminário Teológico Asbury. Atualmente é graduando em licenciatura em história pela Unicesumar. Tenho uma grande e honrosa missão, Ganhar, Cuidar e Encorajar as pessoas a terem um relacionamento com Jesus, é nisso que gasto minha vida, eu e toda minha família estamos envolvidos nesta nobre tarefa. Soli Deo Gloria

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